Já deveria ter escrito alguma coisa sobre o Google TV – fato. O problema é que pessoalmente estou vivendo uma mudança física de um estado para outro, ou seja, estou no olho do furacão nesse exato momento.

A proposta encabeçada pela Google no que se refere à TV junto com web envolve as empresas Intel e Sony, pois necessariamente é preciso que seja criado um hardware capaz não só de ter acesso à internet, mas que também tenha uma grande capacidade de armazenamento de dados.

O sistema Google TV será um tipo de browser específico, que trabalhará basicamente captando, ordenando e armazenando vídeos oriundos de diferentes recursos (alguns free, como o Youtube e NetFlix) e outros pagos – principalmente aqueles que terão apps específicos. O sistema terá uma arquitetura estrutural bem parecida com o Chrome, totalmente adaptado ao Android, ou seja, entra o celular (principalmente os smartphones) não só como base, mas também como um controle remoto pessoal da TV. Para as empresas de mídia (principalmente as que geram conteúdo) será possível a criação de aplicativos específicos para rodarem no sistema – Muitos serão de graça e outros serão pagos.

Mas o que o Google TV representa para o mercado, principalmente o televisivo? Uma revolução silenciosa diriam alguns (como a Google gosta de fazer).

Essa revolução representará uma grande mudança na forma como a mídia será consumida. Hoje temos uma distinção clara do que é consumo de vídeo na web e o que é consumo televisivo – os sistemas já podem ser perfeitamente integrados, mas ainda falta um software e um hardware que sejam mais eficientes. Eu também já postei (essa palavra me irrita um pouco) uma recente pesquisa que aponta o crescimento vertiginoso do consumo de vídeo online no Brasil, o que mostra que até por aqui já existe uma demanda “on-demand” latente. Mas e o mercado mesmo? Pois é, gostaria de exercitar algumas idéias no que se refere às mudanças no mercado televisivo (como um todo, incluindo o publicitário):

  • Teremos uma cadeia mais enxuta, menos verticalizada. Quem produz conteúdo (vídeo nesse caso) não vai precisar “atirar em dois patos” – terá espaço e cobertura para alcançar o seu público ligado em uma plataforma;
  • O conteúdo será o ‘mestre’ de todo o mercado. Como a relação será mais direta, sem intermediários, aos poucos o mercado vai perceber que o conteúdo de fato é o responsável pela audiência (isso pode parecer óbvio para a maioria dos profissionais, mas vejo que ainda há muitas “amarras”).
  • Surgirão novos produtores de conteúdo independentes (como já temos), mas o grande produtor não perderá o seu espaço – Questões técnicas sempre serão levadas em consideração;
  • O mercado de mídia programada não morrerá (leia-se Televisão como conhecemos hoje). Já citei que existem fortes fatores neurológicos, psicológicos, sociais e políticos em torno do consumo de mídia de massa/segmentada. O conteúdo pré-programado não vai deixar de existir, o que vai acontecer é uma adequação do consumo dentro de um conceito mais personalizado: Você terá os seus preferidos, mas ainda vai querer uma programação lean backward, seja para esticar as pernas no domingo à tarde, para se sentir integrante de um determinado grupo (físico ou virtual) ou para se entender como parte de algo maior, como um estado por exemplo. Pense que a capacidade de processamento e armazenamento do ser humano é limitada (mesmo como auxílio de drive externo) e portanto precisamos de um “norte” magnético que nos indique os caminhos a seguir (o neurológico, o psicológico, o social e o político). Isso na verdade já acontece na prática, pare para pensar. São dois universos até então distintos na concepção que vão se encontrar no consumo.
  • As operadoras de conteúdo terão que repensar mais o seu negócio. Se os produtores terão mais acesso direto ao seu público, como ficaria um empacotamento pago de canais televisivos? Os contratos de exclusividade serão mais “atochados”, mas vai chegar certo ponto que os próprios produtores vão entrar em conflito com as operadoras. A solução seria a criação de novos canais (leia-se apps) com conteúdos condensados para a web, porém o próprio mercado diluiria a importância (aos poucos, ninguém precisa pular pela janela agora!) do conteúdo televisivo em formato TV por assinatura. Digo isso porque o produtor (a programadora nesse caso) vai poder disponibilizar o seu conteúdo de forma paga através das apps – lógico, com um preço bem inferior ao que é praticado hoje, porém com ganhos em escala.
  • Alguns grupos de mídia (grandes) vão querer criar o seu próprio ‘Google TV’ (pra chamar de seu), só que a força de mercado do Google (pelo fato de ser a ferramenta Google) obviamente vai ‘fagocitar’ essas tentativas de criação de plataforma. O que quero dizer é que, assim como na web, 80% do fluxo passará por eles. E outra: É Google, Sony e Intel – não é Altavista, CCE e Ching-Ling.
  • O mercado publicitário terá basicamente 3 formas de atuação (TV): Uma ‘pelo’ e outras duas ‘através’: Pelo Google TV, através da televisão como conhecemos hoje (que não vai morrer assim, de uma hora para outra) e através do conteúdo.
  • Product Placement (Ah, chegamos ao ponto!): Se o conteúdo é o mestre e esse estará atrelado a uma ferramenta indexadora de busca muito poderosa, uma solução natural para anunciantes será a adequação do conteúdo à mensagem publicitária. Seria a profissionalização da “brincadeira” que hoje é feita no Youtube, por exemplo.
  • Não teremos o apocalipse dos 30”– esse formato vai continuar existindo. (Para pensar: O comprimento do eixo do automóvel obedece o eixo dos trens e das carroças, que obedecem a largura das antigas estradas, que seguiam o padrão romano – ou seja – dirigimos carros com dimensões de bigas, que tinham espaço para duas pessoas lado a lado: Uma para conduzir e outra para atirar. Fora o Rio de Janeiro – ainda utilizamos o carro dessa forma?). A concepção dos 30” puramente comercial está enraizada e estamos acostumados (e até apreciamos) esse formato. Haverá ainda espaço entre um conteúdo e outro, espaço antes do conteúdo e no meio do conteúdo – Óbvio, novamente: Vai depender do tipo de conteúdo e do conteúdo dos 30”. Seria o sonho do bom profissional de propaganda e o pesadelo do medíocre.

Esses são na verdade os primeiros exercícios de futurologia, ou seja, são pensamentos sobre o que pode acontecer com o mercado televisivo. Um bom exercício é pensar no mercado de áudio, principalmente com o que vem acontecendo com as rádios no ambiente web. Entretanto temos que parar sempre para pensar o modelo, não podemos ser conservadores e nem ‘oba-oba’ em relação às novas tecnologias. O Google TV vai demorar um pouco para emplacar, mas surge como uma tendência natural no mercado.

O Google está saindo silenciosamente do quarto e indo para a sala.