Já faz algum tempo que não posto nada no meu blog – os motivos foram pessoais e profissionais (mudança de estado, de emprego, enfim, tudo). Eu também preferi passar um tempo me aprofundando mais em determinadas áreas, como Relações Internacionais (pretendo fazer a 2ª pós nessa área). Enfim, preferi tirar uns meses ‘sabáticos’ nesse final de ano (tá na moda isso, né?).

 Como voltar e não deixar de falar sobre as impressões que tive lendo o livro ‘O Efeito Facebook’ do jornalista David Kirkpatrick (ed. Intrínseca)? Sim, o livro é melhor obra até então sobre a história da empresa nascida em Harvard e o seu impacto na vida das pessoas, empresas e entidades governamentais;

Muitas coisas me vieram à cabeça, principalmente por ter trabalhado nos últimos anos com inteligência de mercado voltado para a web 2.0 (leia-se ‘rede social’), desenvolvendo estratégias e apontando caminhos para grandes empresas.

 O fato é que o fenômeno Facebook é relativamente recente aqui no Brasil – a rede vem crescendo muito, porém ainda vivemos uma inércia Orkut em relação às redes sociais. Principalmente o Twitter e o Linkedin entraram nesse ambiente confundindo um pouco os conceitos, misturando as concepções de cada canal (já disse que são produtos, que possuem ciclos de existência, posicionamento, segmentação, etc.).

 Entretanto o Facebook foge bastante dessa concepção que nós temos a respeito de redes sociais. Mesmo considerando-o como um produto não há dúvidas que o Facebook mostra um horizonte bem mais amplo do que muitas outras redes sociais, como o MySpace, Orkut e até mesmo o Twitter. A raiz dessa diferença é a própria cabeça do seu presidente-fundador, Mark Zuckerberg, que nunca largou mão de colocar o usuário em primeiro plano e que estrategicamente pensa e enxerga o futuro da empresa à longo prazo (totalmente ao contrário dos seus pares startups que se vendem ao primeiro assédio das ‘ventures capital’ ou grandes grupos de mídia). Enfim, ao contrário do que Hollywood retratou, o próprio Zuckerberg se mostrou muito desapegado em relação ao seu próprio dinhe iro (500 milhões te compram?). O próprio ‘injustiçado’ Eduardo Saverin possui ainda 6% das ações da empresa, o que lhe garante algumas gerações ao sol.

 Mas quais são os motivos (ou características) do Facebook que o coloca sempre no início da curva de maturidade? (Coloquial: Por que o Facebook é uma rede que só sabe crescer?). Vamos tratar de alguns pontos:

 1. Foco no usuário. O Facebook não é uma empresa focada na tecnologia, mas sim na praticidade de uso e na atratividade, sempre pensando o usuário. O Google trabalha engenharia de dados e o Facebook trabalha o psicológico de pessoas em meio social. O próprio Zuckerberg não se enquadra muito no perfil geek – ele é tido por muitos como uma espécie de psicólogo (o negócio dele foi entender essa demanda in loco, quando ainda estava em Harvard). Por isso não há santo que faça o Facebook passar por cima do seu usuário em detrimento do comercial, por exemplo.

2. Visão de longo prazo, transformação gradativa. Quantas startups são compradas logo ainda na sua incubadora? Quantas dessas empresas não se tornam micos ou são asfixiadas dentro de grandes corporações? A visão de longo prazo fez com que o Facebook nunca tivesse perdido o seu rumo – eles sabem o que querem desde o início. O ‘como’ vai sendo adaptado de forma colaborativa. O MySpace está ‘catando cavaca’ desde que foi vendida para a poderosa News Corp. O Orkut mudou o seu escritório para o Brasil (BH), um sinal claro de que o Google não soube trabalha-lo e quando foi ver, foi-se EUA e Índia, sobrando o Brasil como único mercado ainda em crescimento (merece outro post).

3. Plataforma! Muito se engana quem coloca o Facebook na mesma cesta das outras redes sociais. Pouco depois de sua abertura (não IPO!) suas APIs (scripts) foram propositalmente desenhadas para que programadores e engenheiros facilmente construíssem aplicativos. (- Ah, mas o Twitter também é assim, Batman!) Sim, mas há uma pequenina diferança (que na minha opinião deixa o ciclo de vida do Twitter bem pequeno: No Facebook os aplicativos são feitos para rodarem dentro do seu domínio e no caso do Twitter, fora. (Obs: O Connect e Open Stream do Facebook são outras coisas). Fato é que no caso do Facebook o tempo gasto pelo usuário vem crescendo muito (ultrapassou o Google nos EUA) e todos os dados de acesso são centralizados. (Os dados do Twitter são de vida fácil, de qualquer um). O Facebook aos poucos vem se transformando em uma base sólida de conteúdo completamente focada no relacionamento de pessoas.

4. Pessoas de verdade. Voltando a falar de foco, no Facebook as pessoas são pessoas. Simples, mas não são avatares, perfis fakes, apelidos, nick names, bilú-bilús, etc. O que atesta um usuário do Facebook é a sua rede de relacionamento, que é construída através de alinhamentos reais (vida real, não necessariamente de contato pessoal). Aqui no Brasil o filtro ainda não está tão criterioso, mas no resto do mundo há mais controle em relação à criação de perfis. Quando você se relaciona com pessoas de verdade, há mais crédito. Tendo mais crédito, há mais interação. Tendo mais interação, há mais movimento – daí o sistema se torna mais humano, interessante e participativo.

5. Posicionamento. O Facebook pode se transformar em uma rede mais voltada para o profissional? Não. Vai ficar focada em música, ser cool? Ser customizada? Não, não e não. O seu posicionamento é bem definido – uma plataforma de relacionamento de cunho universal. No mercado cada rede deve desempenhar o seu papel e Zuckerberg sabe disso muito bem. É por isso que o Linkedin também terá vida longa – pois é focada em um segmento. O Facebook é amplo como plataforma, ou seja, não é ‘americanizado’, europeu, latino americano, asiático – não responde a uma etnia, não encerra elementos culturais ou sócio-demográficos distintos. O Facebook, como já foi dito, explora a essência dos relacionamentos pessoais e sociais, independente da origem do usuário.  

6. Mercado. Juntando todos os elementos acima descritos, adicionando o elemento ‘inteligência’ comercial, temos uma ferramenta bem feita (ainda não ideal) para empresas e entidades. É possível: Construir página, constituir fãs (amigos), criar relacionamento, desenvolver aplicativos, construir base de dados, pesquisar e anunciar de forma mais precisa (demográfica e psicográfica), criar elementos de união entre sites, estabelecer CRM mesmo em outras bases e por aí vai.

 Muito importante: O Facebook não colocou a carroça na frente dos bois – o peso comercial veio depois de ter foco no usuário, com uma visão de longo prazo sob uma plataforma baseada no relacionamento de pessoas reais, constituindo um posicionamento sólido no mercado. A partir disso a sua base vem crescendo e ganhando um volume excepcionalmente atrativo para o mercado.

 Alguma dúvida de que o Facebook ainda vai crescer muito mais?